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sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A História do Botox




"Venenos podem ser empregados como uma forma de destruição da vida ou como agentes de tratamento de doenças”                                                                       Claude Bernard, 1885


Justinus Andreas Christian Kerner (Ludwigsburg, 18 de Setembro 1786 - Weinsberg, 21 de Fevereiro de 1862) foi um médico, escritor e poeta alemão.

 

Justinus Kerner 

Kerner foi o primeiro a fazer uma descrição detalhada do botulismo (Clostridium botulinum), sendo ainda o precursor das aplicações terapêuticas da toxina botulínica, experimentando em diversos animais, e em si próprio, os seus efeitos.

 

 


A história do C. botulinum e da toxina botulínica tem início no final do século XVIII, com o relato de envenenamentos alimentares após o consumo de linguiça, sangue e de carne e a ocorrências de várias mortes no Reino de Württember (Alemanha).   
A Guerra Napoleônica (1795-1813) havia acarretado problemas econômicos e levado, dentre outras coisas, a negligência nas medidas sanitárias de controle da produção rural de alimentos, o que contribuiu para a epidemia do então chamado “Envenenamento por Linguiça". 
Dentre os sintomas apresentados pelas vítimas, estavam a midríase e a paralisia muscular progressiva, levando inicialmente à suspeita de intoxicação por atropina. 
 
Entre 1793 e 1827 foram registrados 234 casos de intoxicação em Württemberg. Em 1811, o Departamento de Assuntos Internos de Reino de Württemberg atribuiu “envenenamento por linguiças” a uma substância conhecida como “ácido prússico"(hoje, ácido hidrociânico ou cianídrico).  
A análise dos casos relatados ao longo danos, resultou no anúncio público, pelo governo alemão, de sintomas gastrointestinais, autonômicos e neuromusculares relacionados a envenenamentos alimentares, enfermidade posteriormente chamada de botulismo (botulus: do latim, lingüiça).
  
Os estudos científicos sobre o botulismo se iniciaram em 1817 com as investigações realizadas pelo médico e poeta alemão Justinus Kerner (1786-1862), que descreveu clinicamente e em detalhes o botulismo.
 

 

  
Em 1820, Kerner sumarizou 76 casos de pacientes que apresentavam evidências clínicas do que  hoje conhecemos como botulismo.
 Em 1822, Kerner publicou 155 relatos de caso de pacientes com botulismo   e escreveu uma monografia completa sobre a toxina oriunda de linguiça com   base em experimentos com animais conduzidos por ele próprio, a partir dos quais fez   as seguintes observações: 
      i) A toxina se desenvolve em linguiças azedas em condições anaeróbias;
      ii) Tem a capacidade de interromper a transmissão motora no sistema nervoso periférico e           autonômico;
      iii) É letal em pequenas doses.
 No entanto, até este momento, Kerner ainda não sabia que a toxina seria produzida por um microorganismo, suspeitando que a mesma tivesse origem animal. A ocorrência de casos de botulismo suscitou várias investigações sobre a possível fonte da toxina.
 Publicando suas análises entre 1817 e 1822 na revista Tubinger Blatter fur Naturwissenschaften und Arzneykunde (Tubinger Papers for Natural Sciences and Pharmacology) ele chegou, naquela época, a vislumbrar possíveis utilizações terapêuticas para o que ficou conhecido como o "Veneno das Salsichas Defumadas". Ele orientou que a fervura poderia evitar a doença, oferecendo uma das primeiras lições sanitárias da história da medicina.
  
Van den Corput postulou que um fungo, o qual denominou Sarcina botulina, poderia ser a fonte da toxina. Porém, como não se conseguiu isolar tais fungos, sua teoria caiu por terra.
  
Várias teorias foram propostas até que, em 1895, Emile Van Ermengem (1851-1922), um microbiologista treinado em Berlim por Robert Koch (1843- 1910), correlacionou a epidemia de botulismo ocorrida em um piquenique no vilarejo belga de Ellezelles com o isolamento de uma bactéria encontrada em alimentos servidos no evento, no qual 34 pessoas foram contaminadas, incluindo todos os músicos da orquestra contratada, sendo que 3 pacientes foram a óbito. 
Nos restos de alimentos, servidos no piquenique, Van Ermengem isolou esporos de um bacilo anaeróbio, o qual chamou de Bacillus botulinus. Além disto, Van Ermengem provou se tratar de uma toxina ao utilizar um filtrado do cultivo livre de bacilos e esporos em animais de laboratório, os quais manifestaram sinais de paralisia. Posteriormente, o Bacillus botulinus foi renomeado, passando a ser chamado de Clostridium botulinum.
  
Muitos anos mais tarde, na mão dos militares americanos, a toxina tornou-se a mais promissora arma biológica da Guerra Fria. Foi usada na Guerra da Coréia, mas sem sucesso. Apesar de ser o veneno mais potente sob controle do ser humano –quer dizer, podemos fabricá-lo, purificá-lo, transportá-lo e utilizá-lo quando e onde quisermos, mas, felizmente a natureza o fez de maneira extremamente frágil e instável. Depois de diluí-lo, qualquer agitação do líquido pode separar as duas partes da molécula de que é composta a toxina e fazer com que ela perca toda a sua potência, por isso, seu uso militar passou a ser secundário. 
Após perceber que sua utilização como arma biológica era ineficaz, os militares a presentearam a um oftalmologista, o Dr. Alan Scott, que fez o primeiro uso médico da toxina ao tratar estrabismo e blefaroespasmo (uma contração involuntária da pálpebra que impede a pessoa de abrir os olhos e enxergar), a toxina agia diminuindo a contração muscular, com melhora dos sintomas. 

          Em 1977 a toxina foi aplicada em doses baixas em humanos, como tratamento, por Dr. Scott e se            encontrou uma segurança que a faria ser utilizada em muitas outras indicações médicas, inclusive            as estéticas.

Em 1987, Dra. Jean Carrhuthers (Oftalmologista) que havia trabalhado com Dr. Scott aplicando a toxina para tratamento de estrabismo, notou que uma paciente de estrabismo tratada com a toxina, havia relatado que suas rugas melhoravam muito quando a toxina era aplicada. Então, juntamente com seu marido, Alaistair Carruthers (Dermatologista), passaram a estudar e utilizar a Toxina Botulínica para fins cosméticos, dando início a revolução que observamos no tratamento das rugas e do envelhecimento.

O uso de toxinas como medicamentos faz parte da história da medicina, assim foi com a penicilina produzida por um fungo, e com o captopril, uma droga muito utilizada para hipertensão, derivada do veneno da cobra jararaca e muitas outras.

          As doses utilizadas para o tratamento das rugas com a toxina são em torno de 30 vezes inferiores            às que seriam capazes de causar complicações maiores, semelhantes as doenças. Isto oferece                   grande segurança para o paciente.

 O poeta médico e cientista Kerner, ficaria satisfeito em ver uma tão perigosa toxina ser domada e utilizada para a felicidade e a qualidade de vida da pessoas.


 

 * Justinus Kerner morava em Weinsberg, no Sudoeste da Alemanha, sua casa foi transformada em um museu em sua homenagem. Ele também se destacou como poeta, formando com Johan Uhland, Schwab e Mörike, a chamada "Escola Suaba". Publicou cinco coleções de poesia entre 1826 e 1854, e, em prosa, a obra "Silhuetas de Viagem"(1811), "Livro Ilustrado da Minha Adolescência" (1849), além do "A Vidente de Prevorst" (1829).


 * Kenner foi também pioneiro no jogo, muito difundido no século XIX  chamado Klecksographie (Klecks, significa mancha de tinta) em que os jogadores criavam pequenos poemas a partir de manchas abstratas de tinta - cujo princípio básico é o mesmo de formar figuras com as nuvens dispostas no céu. 

   

 

             **BotulismoA toxina botulínica é uma potente neurotoxina produzida pelo Clostridium                        botulinum, um bacilo gram-positivo, anaeróbio estrito, que pode ser encontrado no solo e                        também em coleções de água doce ou salgada em todo o mundo.

           Estes esporos podem ser encontrados em alimentos e, se ingeridos, podem levar ao                                   botulismo infantil, com produção de toxina botulínica no intestino grosso do hospedeiro.

 Considerada como a substância mais letal conhecida  atualmente, a toxina botulínica possui dose letal média (DL 50 – dose de toxina capaz de levar à morte 50% da população a ela exposta) de 1 nanograma de toxina por quilograma de peso corporal (10-9 g/kg). Pode  levar à ocorrência de botulismo alimentar se ingerida e absorvida por hospedeiros susceptíveis através de fontes alimentícias contaminadas com a toxina pré- formada.
 O diagnóstico clínico é feito pelos sintomas: paralisia muscular progressiva, iniciando-se       pela face, ptose palpebral (fecha o olho), dificuldade de deglutição, visão dupla. Os sintomas progridem pela musculatura, causando dificuldade motora e de respiração. Os sintomas podem se confundir com doenças nervosas e diversas intoxicações, como por pesticidas, o que as vezes retarda o tratamento.

 O tratamento é feito geralmente com a aplicação de soro antibotulínico e, não raras  as vezes, é necessário que a pessoa acometida se já internada, para que fique em observação. Antibióticos não são eficazes para esse caso. 
Considerando os problemas e riscos relacionados à infecção pelos esporos da Clostridium  botulinun, é importante adotar algumas medidas com a finalidade de prevenção: 
              - Não adquirir nem ingerir alimentos cuja lata ou tampa se apresentem estufadas ou           enferrujadas;
             - Não adquirir nem ingerir alimentos cujo conteúdo líquido se apresente turvo;
             - Não adquirir nem ingerir alimentos cujo vidro se apresente turvo;
             - Só consumir mel de procedência conhecida;
             - Ferver alimentos enlatados antes do consumo, principalmente o palmito, já que                este é um dos alimentos mais relacionados aos casos de botulismo (a toxina é  destruída à temperatura de 65 a 80º C por 30 minutos; ou à 100 º C por 5 minutos).

 

 #Fonte: Toxina Botulínica, Alaistair Carruthers & Jean Carruthers. Elsevier. 2009


                                                                                                Dr.Brunno Rosique. Cirurgião Plástico